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Aliança entre TIM e Vivo isola Claro, que atua nos bastidores

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Companhias decidem fazer oferta pela Oi e expõem estratégia na competição

As operadoras de telecomunicações deram a largada na terça-feira à noite em busca de adquirir a área de serviços móveis da Oi, que está em recuperação judicial desde 2016. Oficialmente, a Telefônica Brasil, dona da marca Vivo, e a TIM Brasil se uniram em consórcio para fazer um lance pela Oi. Mas há informações de que a Claro também está na corrida. 
Na terça-feira, a Telefônica e a TIM comunicaram ao mercado que manifestaram em conjunto ao Bank of America Merrill Lynch (BofA), assessor financeiro da Oi, interesse pelo ativo. Se concretizado, cada uma receberia uma parcela do negócio. A Oi vem sendo avaliada no mercado entre R$ 12 bilhões e R$ 19 bilhões. 
A notícia agradou os investidores na B3 ontem. A ação ordinária da Oi teve valorização de 4,49%. A ação ordinária da TIM avançou 1,23%, enquanto a preferencial da Vivo teve alta de 0,48% - TIM e Vivo foram as únicas altas do Ibovespa, do qual a Oi não participa. 
A formação do consórcio expõe um possível movimento bem pensado para isolar a empresa do grupo América Móvil, controlado pelo bilionário mexicano Carlos Slim. 
Colaboradoras em alguns momentos, as operadoras são essencialmente competidoras e se unem basicamente quando as regras assim exigem. No caso da Oi, nenhuma das teles poderia levar sozinha sua área móvel sem que isso esbarrasse no limite de espectro permitido pela Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel), o que é conhecido no jargão do setor como “spectrum caps”. Juntas, podem comprar e dividir. 
“Quando tiverem uma oferta firme, as empresas vão precisar de uma anuência prévia da Anatel. Também daremos subsídios ao Cade [Conselho Administrativo de Defesa Econômica] para avaliar esta operação”, disse ao Valor, Leonardo Euler de Morais, presidente da Anatel. Do ponto de vista de regulamentação, a reflexão imediata é sobre a concentração das faixas de radiofrequência. 
Todas as operadoras estão atentas ao limite de espectro que possuem, apesar da redistribuição de capacidade que a Anatel fez no fim de 2018. Sem esse rearranjo, haveria o risco de as companhias não poderem participar do leilão de radiofrequências para a quinta geração de telefonia móvel (5G). 
No novo modelo, o que conta é quanto cada operadora tem por faixa de espectro, e não só o total geral. No próximo leilão de 5G, a Anatel vai oferecer a faixa de 3,5 gigahertz (GHz), 700 megahertz (MHz) e 26 MHz. 
A Oi não possui espectro de 3,5 GHz nem 700 MHz, enquanto nenhuma delas têm 26 MHz. Portanto, aí não haveria problema de sobreposição. Entretanto, as faixas mais antigas, como 800 MHz, que a Oi possui, terão de ser analisadas com mais cuidado. 
Entre as três interessadas na Oi, a Claro é a que está mais bem posicionada em quantidade de espectro, pois recentemente comprou a Nextel. Dessa forma, é a que teria menos premência em fazer uma aquisição, embora não possa dispensar a oportunidade. Mesmo que adquira menos espectro que suas rivais, a Claro pode almejar a carteira de clientes da Oi, que é relevante e valha um acordo. 
A unidade móvel da Oi tem receita aproximada de R$ 7,5 bilhões. Sua carteira é de 37 milhões de clientes no serviço móvel, com 14,6 mil torres e espectro disponível a partir de 92 MHz. O limite de espectro na faixa de até 1 GHz, destinado à cobertura, é de 35%, podendo chegar a 40%. Na frequência entre 1 GHz e 3 GHz, também há limite de 35%, até 40%, mas sob condições da Anatel. A partir de 3 GHz não há condicionamento. 
Luigi Gubitosi, presidente da Telecom Italia, controladora da TIM Brasil, disse ontem em teleconferência com analistas sobre os resultados financeiros de 2019 que o interesse do grupo é apenas na divisão de telefonia celular da Oi. “As sinergias serão significativas e geradas a partir do primeiro ano”, afirmou. “Um acordo como este é razoável para todos os participantes do mercado. Achamos que faz sentido para a indústria e terá sinergias para todos”, acrescentou. 
A Claro continua sendo a empresa em melhor situação econômica para fazer um investimento como esse. Isso porque as controladoras da Telefônica e TIM estão bastante endividadas, embora Gubitosi tenha argumentado que o negócio não afetará o processo de desalavancagem da Telecom Italia. Mas é evidente que um consórcio reduz a carga para os dois grupos. 
Seria possível para a Claro dar um lance sozinha pela Oi, mas teria de fazer um esforço maior do que suas rivais combinadas, inclusive em engenharia para redistribuir parte do espectro devido ao limite. 
Além disso, a Telefônica, liderada por Christian Gebara, e TIM vão precisar da Claro para ganhar o aval do Cade e da Anatel. Em muitas localidades, como Sul e Nordeste, só há duas operadoras, sendo uma delas a Oi. Com a saída da Oi, as regras não permitiriam que a TIM ou a Telefônica elevassem a fatia onde já são dominantes. Assim, a Claro é um remédio necessário para equilibrar. 
O consultor Juarez Quadros destaca que para a Oi a venda da unidade é uma boa solução. “A Oi precisa de caixa para passar fibra como pretende o Rodrigo Abreu [presidente da Oi] para prestar infraestrutura. O que ela vendeu na África [fatia na Unitel ] mais debêntures no fim do ano não são suficientes”, disse. Isso, mesmo considerando venda de torres. Quadros lembra que o juiz da recuperação judicial e os acionistas da Oi têm de concordar com a operação. 
Essas quatro empresas têm se cruzado ao longo dos anos como aliadas e inimigas. Telemar, Brasil Telecom (atual Oi) e Telefónica formaram um consórcio anos atrás para tentar comprar a Embratel e impedir que o grupo de Slim o fizesse. Perderam para a Claro. Depois, a Telefônica, TIM e Oi se uniram na tentativa de levar a TIM e fatiá-la entre si, para eliminar a concorrente. A Oi é a bola da vez. 
Em dezembro, o Cade aprovou sem restrições a compra da Nextel pela América Móvil. A autarquia recusou recurso da TIM para bloquear o negócio, que desagradava também a Telefônica. Agora, com o caso da Oi, as teles poderão provar de “seu próprio veneno”, diz uma fonte próxima às companhias. (Colaborou Rafael Bitencourt, de Brasília) 

 

12/03/2020
 

Autor(a)
Por Ivone Santana e Alexandre Melo — De São Paulo